
Após ser premiado no Leão de Ouro e bem recomendado pela crítica especializada, o filme do Coringa finalmente estreou e praticamente monopoliza as atenções dos amantes do cinema neste final de semana.
Mesmo com um investimento em marketing reduzido em comparação a outros blockbusters, o filme conseguiu se vender pelos comentários sobre a qualidade da direção de Todd Phillips e sobre a performance de Joaquin Phoenix, lotando suas sessões e provavelmente (segunda-feira saberemos) conquistando o recorde de maior lançamento no mês de outubro da história da indústria cinematográfica.
Fui assistir e, sinceramente, não vi nenhum elemento no filme que o fizesse merecer as criticas hiper-entusiásticas que ele vem recebendo no tocante de ser “o filme do ano”, “um dos melhores filmes do gênero” etc. Não é um filme feito com má-vontade como foi Liga da Justiça ou um filme entusiasmante como foi Aquaman. É um filme que tem seus momentos, mas que também tem seus defeitos.
Não é nada épico ou grandioso: trata-se de uma história que se encerra em si mesma (e que todos sabem que está contida dentro do universo do Batman) e procura fazer uma rediscussão dos temários violência social e loucura, questões já trabalhadas em Taxi Driver e Laranja Mecânica.
No quesito novidade, alguns chamam a atenção para o protagonismo de um vilão em um filme próprio. Argumento que não se sustenta, tendo em vista que logo aqui em 2018 tivemos Venom com filme próprio e Thanos como protagonista de Vingadores: Guerra Infinita. E também que a própria DC, 15 anos atrás, já fez um filme tendo uma vilã como protagonista: Mulher-Gato – que foi um fracasso retumbante e até envergonha a companhia quando lembramos que isso existiu.
A censura de 16 anos me pareceu um exagero. Não quero dar spoilers, mas a cena mais “perturbadora” (se é que há alguma) é o assassinato de alguém com dois golpes de tesoura. Dois assassinatos de mulheres ficam subentendidos na trama, mas as cenas não aparecem porque Todd Phillips achou melhor utilizar o tempo do filme com cenas de Joaquin Phoenix pintando o cabelo e dançando de cueca. Não dá pra culpá-lo também: com US$ 55 milhões de orçamento, ele fez mais do que podia com o filme.
A atuação de Joaquin Phoenix como um Coringa em formação e transição (de um anônimo para um dos piores criminosos de Gothan) convence. Merece os aplausos que está recebendo e não quero diminuí-la, mas acho precipitado falar em Oscar – tanto que as pessoas (e críticos também!) estavam comentando isso tendo visto apenas trailers, antes de assistir o filme, o que é muito mais uma “torcida pelo ator” do que uma “avaliação do trabalho”.
A comparação entre quem foi melhor entre Joaquin Phoenix, Jack Nicholson ou Heath Ledger (Cesar Romero não tem espaço aqui) vai acontecer, embora seja inútil e descabida. Nicholson fez um Coringa mais cartunesco, Ledger fez um Coringa mais calculista e realista, Phoenix fez uma ponte entre dois personagens: Arthur Fleck e Coringa. É possível preferir qualquer um dos três de acordo com interesse pessoal neste ou naquele formato de atuação e gênero cinematográfico – mas se alguém preferir o Jared Leto é caso de internação!
Agora é preciso falar do principal problema do filme: o seu propósito. Todos sabem, até pela iconicidade do personagem, que o Coringa é um vilão e está longe de ser um exemplo a ser seguido. O personagem já roubou, estuprou, torturou e matou só pra dar risada das vítimas e provocar o Batman. Sempre foi de fazer o mal pelo mal.
Se tem uma coisa que critico nele enquanto construção de personagem e arquetípica é que falta propósito às suas ações em muitas histórias, o que esvazia seu conteúdo e limita seus confrontos com o Batman ao maniqueísmo “bem versus mal”.
Mas a atmosfera do filme e o roteiro não contribuem para esse entendimento. Arthur Fleck é um doente mental que recebia remédios do governo e teve seu tratamento interrompido por cortes da prefeitura no serviço social. De maneira gratuita, apenas para “fazer o filme funcionar”, crianças roubam seu adereço de trabalho, o agridem com ele e o deixam desacordado no chão – isso não é spoiler, está no primeiro trailer e acontece daquele mesmo jeito. Também de maneira gratuita, ele é repreendido por uma mãe simplesmente por fazer seu filho sorrir com uma brincadeira infantil – também não é spoiler, está no segundo trailer.
Ele não compra e nem procura uma arma. Quando a utiliza, é em legítima defesa quando estava sendo chutado no chão por três assediadores de mulheres que o pai do Batman chamava de “cidadãos de bem”. A ideia que se passou – e isso é inegável – foi a de que Fleck é uma vítima da sociedade: pobre, doente, sem emprego, desassistido socialmente, torturado quando criança, agredido quando adulto e humilhado quando buscava se socializar. E ele só se tornou o Coringa para se vingar da sociedade ruim que o oprimia e por obra do acaso – Fleck não teve controle sobre a convulsão social que tomou conta de Gothan (algo bastante forçado no roteiro e sem verossimilhança) e que acabou “criando” o Batman.
É possível – ainda mais com a polarização política atual – que uma onda de jovens desequilibrados queiram sim praticar crimes inspirados no comportamento do Coringa – explicado por Todd Phillips como um anti-herói incompreendido.
É ridículo que o diretor não tenha percebido isso e que venha culpar segmentos políticos da esquerda pelas críticas negativas ao seu filme, como se devêssemos aceitar de bom grado o “politicamente incorreto” e apenas aplaudi-lo.
É absurdo que outro segmento político, o da extrema direita, esteja exaltando o filme simplesmente pelas críticas (que o MBL chamou de “patrulhamento”) feitas por setores à esquerda do espectro ideológico, como se fosse uma competição de “lacradores têm razão” versus “lacração é coisa chata”. Chato, de verdade, é ser burro…
Aplaudir esse filme sem olhar para seus efeitos vindouros, que podem ser mais perigosos que debates em rodas de conversas e cineclubes, é uma irresponsabilidade que eu prefiro não cometer. Numa sociedade sadia, o filme seria objeto de reflexão. Numa sociedade adoecida, ele pode se tornar uma projeção. Sociedades que elegem e exaltam Trumps e Bolsonaros são confiáveis?