Em qualquer outro país, um grupo que contasse com atletas do quilate de Marta, Cristiane, Érika e Formiga seria sensação e orgulho popular. Mas no Brasil, com o futebol feminino relegado à periferia midiática, o tempo vai passando, as meninas vão se transformando em mulheres e o talento delas sendo desperdiçado.

Além de suas conquistas pessoais e coletivas em clubes, “pouco” vem sendo deixado como legado na Seleção. Pratas olímpicas, Pan-Americanos, um vice de Copa do Mundo, torneios sul-americanos… retrospecto bom, mas que não reflete a qualidade e o potencial do grupo.

E os fantasmas, algozes, problemas, angústias, pedras no caminho, dramas, mixórdias e tudo mais que impedem o desenvolvimento do futebol feminino brasileiro se concentram num único lugar: a Confederação Brasileira de Futebol. Parece piada, mas quem deveria gerenciar a modalidade converteu-se em entrave para ela. Não é pra rir disso, é pra chorar mesmo!

O homem que preside a CBF desde 1989 e coleciona acusações dos mais diversos crimes, Ricardo Teixeira, prometeu em 2004, após a primeira prata olímpica das meninas, dar apoio e suporte para uma liga feminina brasileira. Mas o que fez foi criar, três anos depois, uma Copa do Brasil com poucas datas e só.

Os estaduais, quando existem, são também pequenos e poucas equipes se interessam em montar times para disputá-los. Recentemente vimos o Fluminense, atual Campeão Brasileiro, cancelar sob protestos a modalidade de seu quadro.

Entra ano sai ano e o mesmo roteiro se repete com pontualidade britânica. Sabemos que o que aconteceu entre a Copa do Mundo feminina de 2007 e 2011 se repetirá entre 2011 e 2015: vamos noticiar modestamente o futebol feminino nas Olimpíadas e ele vai ter um desempenho melhor que o masculino; vamos não falar quase nada sobre ele até 2015, dando destaque apenas às premiações de Marta nas eleições da Fifa; e quando a próxima Copa do Mundo chegar, vamos deixá-la à margem, como coadjuvante, já que as atenções estarão focadas na Copa América de futebol masculino.

É isso que as meninas do futebol, que se esforçam para representar seu país e honram a camisa bem mais que os homens, merecem?

Sabemos que o futebol feminino movimenta cifras modestas se comparado com o masculino. O que é compreensível, pois algo que surgiu pouco mais de duas décadas atrás e é tratado como um refugo não pode se equiparar com um produto pronto e consolidado. Mas o esporte deve ser tratado pelos clubes como um negócio lucrativo e só, visando que jovens atletas despontem e possam render milhões ao serem vendidos para o continente europeu; ou deve prezar também pelo seu viés sócio-educativo, que na busca por formar atletas afasta jovens carentes das drogas e da criminalidade, abrindo-lhes oportunidades de profissionalização e inspirando outros a seguir o mesmo caminho?

Em síntese: o futebol perdeu parte de seu devenir e – em nome do entretenimento lucrativo – transformou-se numa máquina de moer seres humanos? Se o futebol não serve prioritariamente como oportunidade aos jovens do país em sua totalidade, mas sim aos que agenciam carreiras de atletas e lucram com isso, por que os clubes recebem beneces governamentais como a Timemania?

Está na hora de quebrar com o descaso e investir no futebol feminino para que outras Martas possam ser formadas com menos sofrimento do que a original. O futebol das mulheres pode se tornar atraente, atrativo, midiático e lucrativo como o dos homens; mas para isso precisamos deixar de tratar um esporte profissional como amador. Para isso é preciso que a CBF seja comandada por alguém que tenha vontade de implementar essa mudança. Está na hora, portanto, da torcida abaixar os cartazes “fora tal técnico” ou “fora tal treinador” e começar a erguer, em uníssono, o coro “fora Ricardo Teixeira”. Em 22 anos de gestão ele já demonstrou que não será a pessoa a fazer esse trabalho…

E pra não deixar passar batido: está na hora de Ricardo Teixeira ser investigado de maneira rigorosa pelas autoridades competentes. Ele não é o dono do país, como fica evidenciado que pensa ser nas páginas da Revista Piauí deste mês.

Publicado originalmente no Portal Extra-AP.