
O Corinthians parece imbatível nesse começo de Brasileirão. Qual é o porquê desse início massacrante, onde o time já soma oito vitórias em nove jogos (das quais seis em sequência) e está sem perder no Brasileirão faz 18 partidas?
Certamente que não é o elenco, o qual tem poucos atletas badalados e se compõe muito mais de jogadores esforçados que de craques. O Corinthians dá certo por sua disciplina e organização tática dentro de campo. Só que não começou a fazer isso agora, mas três anos atrás. E foi o aprimoramento de uma sequência que lapidou e aprontou esse time!
Tente fazer o São Paulo jogar três apresentações seguidas sem o trio de zagueiros. Vários já tentaram isso desde 2005. Nenhum conseguiu. O time conquistou resultados naquela temporada que consagraram a formação e adquiriu uma estrutura que se predispõe e ser montada dessa forma. Assim é hoje com o Corinthians, fruto da herança deixada por Mano Menezes.
Em 2009, quando conquistou o Paulista e a Copa do Brasil, Mano fincou o 4-2-3-1 no DNA corinthiano de uma forma que a mecânica original daquele time se reproduz até hoje, mesmo que de lá pra cá tenham ficado só três titulares: Alessandro, Chicão e Jorge Henrique.
Mano fez do Timão uma equipe ofensiva e – visionário que foi! – instaurou um ano antes da Copa o esquema que viria a se tornar referência em muitas das boas seleções que foram à África do Sul. Hoje na Seleção Brasileira, Mano tenta repetir o esquema (e o sucesso) do Corinthians de 2009 com outros jogadores, mas ainda não conseguiu o êxito desejado: falta sequência; falta o grupo assimilar o posicionamento que o treinador quer dar…
A defesa do Corinthians se arma numa clássica linha de quatro, com laterais que sobem e regressão. No meio, dois volantes e um armador mais avançado. Os três atacantes abusam da versatilidade: um fica centralizado e os outros dois “armam o carnaval”, vez atuando de meias ao lado do armador, vez atuando de pontas.
Isso foi implementado em 2009 com Douglas na criação de jogadas e aproveitando a velocidade dos “pontas” Dentinho e Jorge Henrique, sempre em movimentação. Todos em função de achar o camisa 9, Ronaldo, em condição de finalizar. Não é sem motivo que o Fenômeno virou ídolo da torcida graças a essa dinâmica de jogo…
Os volantes marcavam e saiam pro jogo, eram eles Cristian e Elias (hoje na seleção de Mano, junto com o lateral-esquerdo André Santos) – a versão do Parque São Jorge dos tricolores Josué e Mineiro. E na hora de jogar sem a bola, só Ronaldo recuava menos para recompor o grupo, ficando apto a receber um passe e disparar rumo ao gol adversário. Foi assim que ele “matou” o São Paulo na semifinal do Estadual, quando disparou e ganhou a corrida em cima de Rodrigo, para depois vencer Bosco.
Hoje o Corinthians faz praticamente o mesmo que fazia antes, mas com outras peças – que repuseram muito bem os que se foram! Os volantes atuais fazem o mesmo da boa dupla antecessora: Ralf e Paulinho, vivendo grande fase, são donos do setor. Douglas nunca foi genial, era até um pouco preguiçoso, mas cadenciava o jogo e sabia onde mandar a bola no momento certo. Danilo faz algo similar, por isso é titular e não perdeu a posição para o campeão do mundo Alex.
Nas pontas Jorge Henrique continua prestando bons serviços. Veloz e irresponsável (no bom sentido) como Dentinho, apareceu o jovem William, a boa revelação que garantiu os últimos seis pontos da equipe, contra Atlético-GO e Internacional. O principal finalizador de agora pode não ter a mídia que tinha Ronaldo, mas é goleador e tem experiência de Copa do Mundo: Liédson. O levezinho, do jeito que está, vai ter que fazer Adriano suar muito para entrar no time.
Uma opção de manter ambos na equipe titular seria centralizar o imperador e deixar Liédson numa das pontas, sacando Jorge Henrique ou William. Mas com o time voando como está, é difícil que Tite saque algum dos três para promover a estréia de uma incógnita. Eu não aposto na titularidade de Adriano, até pelo fato do Corinthians estar se virando muito bem sem ele.
Como parar o Corinthians? Vencendo a disputa no setor de meio campo. Superficialmente, parece anular o articulador principal, no caso Danilo. Mas não é só isso! Quando Danilo some, os volantes também saem para o jogo e abastecem os atacantes. E o meio ainda é constantemente reforçado pelos pontas na recomposição defensiva, tornando o setor mutável de três para cinco homens a depender da situação do jogo. É difícil fazer com que cinco pessoas sejam anuladas de uma vez, ainda mais quando o time está no embalo com tantos bons resultados.
O Corinthians não tem um time galáctico como aqueles que conquistaram seus últimos três Brasileiros. É um time mais aguerrido, que joga no limite e consegue vencer na base da organização, mais assemelhado ao Corinthians do primeiro título nacional em 1990.
Todos sabemos que o Brasileirão é longo, que ainda haverá janela de transferências etc. Mas, no momento, com seis pontos acima do segundo colocado, o Corinthians é favorito e seu maior adversário é ele mesmo. Se mantiver o padrão de jogo (e ainda contando com os reforços que terá, entre os quais Adriano), vai ser difícil de ser batido. Os corinthianos podem bater no peito e dizer que estão disputando o título sozinhos. As demais 19 equipes, neste momento, brigam pela segunda colocação.
E aplausos para quem organiza essas “formiguinhas operárias”. O nome dessa pessoa é Tite, tão contestado por todos os lados, mas que tem o grupo na mão…
Publicado originalmente no Portal Extra-AP.