
Kléber foi para a esquerda no momento em que todos vão para a direita. O palmeirense chutou o balde via Twitter: criticou a atitude dos flamenguistas em querer ganhar tempo devolvendo a bola no campo de defesa do Palmeiras e justificou sua tentativa de fazer o gol após o juiz reiniciar o jogo com bola ao chão.
Para a maioria dos que (de)formam opinião, Kléber justificou o que não se justifica, pois ele desrespeitou o fair play. Será?
Fair play (ou jogo limpo) não é somente retirar a bola de jogo para um atendimento médico durante a partida e depois devolvê-la à equipe que detinha sua posse. Vai muito além disso. “O fair play é um elemento essencial do futebol. Ele representa os benefícios de cumprir as regras, ter bom senso e respeitar jogadores, árbitros, adversários e torcedores.” Isso segundo o próprio site da Fifa, idealizadora do produto!
Então faltou fair play a Kléber, que tentou fazer o gol (ou seja, tentou cumprir com seu dever de atacante) e agora pode ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por má conduta ética? E que coisa curiosa: o STJD, aquele mesmo órgão que tirou o título do Inter em 2005 com a anulação dos jogos, julgando alguém por falta de conduta ética… segue o texto.
Vamos supor que sim, vamos admitir que Kléber menosprezou um preceito basilar da ética desportiva entre os praticantes do futebol, que errou por ir contra uma cultura já intrínseca aos futebolistas. Mas só ele está errado e remando contra o fair play?
Fazer falta e pedir cartão para quem a sofreu por uma suposta simulação, é “cumprir as regras” e “respeitar o árbitro”, é fair play? Forçar um cartão para ficar fora do jogo seguinte é fair play? E retardar o reinício da partida fazendo a famosa cera é condizente com o fair play?
É louvável que a discussão sobre o jogo limpo entre em debate agora, mas não somente para crucificar Kléber discutindo uma fatia da questão, e sim para debater fair play como um todo. O comportamento padrão do jogador brasileiro, que criou o (mau) costume de simular faltas e aceitar malas brancas deixa a desejar – e muito! – nesse aspecto. Todos buscam a Lei de Gérson!
Não acho justo colocar Kléber como um Judas e iniciar sua malhação por ter “feito pouco” da prática, por ter caracterizado-a como “hipocrisia”. Retirados os excessos e a capacidade em admitir o erro, Kléber tem razão em uma coisa: o fair play já não existe faz tempo.
Charlie Chaplin entrou num concurso de sósias dele mesmo e ficou em terceiro lugar. Isso sim é uma história! Dizer que Kléber foi o primeiro a chutar o fair play não é; trata-se somente de oportunismo barato!
Publicado originalmente no Portal Extra-AP.