
Uma partida que anunciava Ronaldinho Gaúcho, Thiago Neves, Neymar e Paulo Henrique Ganso em campo, com Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho no banco, prometia alguma coisa além do trivial. E essa expectativa foi contemplada pelo que se viu na noite de quarta-feira, em Santos 4×5 Flamengo na Vila Belmiro.
Para quem quiser exagerar, é possível dizer que “foi um dos melhores jogos de todos os tempos”. Caindo na realidade, tratemos como uma virada sensacional e histórica, com Ronaldinho batendo um hat-trick e o Flamengo virando uma partida que parecia perdida quando o Santos abriu 3×0 nos primeiros 26 minutos do confronto.
Sejamos ponderados na análise e nos adjetivos, pois o que os times fizeram de bom no ataque e no meio-campo, as defesas não acompanharam e abusaram das falhas e do mau posicionamento. O único destaque do setor defensivo vai para Felipe, que defendeu o pênalti de Elano quando o Flamengo perdia por 3×2.
O meio do Santos levezinho, com Ibson, Elano e Ganso, atribuindo para Arouca a parte suja do trabalho, deixou a zaga exposta. E aí, expor Edu Dracena e Durval contra Ronaldinho e Thiago Neves, é pedir pra tomar gol. Quando o Santos vencia por 4×3, levou os dois gols da virada com roubadas de bola do Flamengo no campo de ataque: Luxemburgo sabia onde apertar o rival!
A solução para isso Muricy já sabe qual é: Elano ou Ibson dará lugar para o ex-cruzeirense Henrique. Cabe dizer, também, que Ganso fez pouco ao que se espera que faça. A diferença do futebol de Ronaldinho e Neymar para o do camisa 10 santista foi absurda.
Sem dúvida que vai imperar a imagem de leveza desta partida, com somente 28 faltas (19 do Santos e 9 do Flamengo) e 39 desarmes (12 do Santos e 27 do Flamengo, o que mostra o meio pouco marcador do time de Muricy). Nos desarmes, é bom que fique dito, ambos precisam melhorar: o líder Corinthians, de Ralf e Paulinho, faz cerca de 40 por jogo.
Foi uma partida recheada de gols e isso é bom para o espetáculo. Foi uma virada histórica do time de maior torcida no país sobre um adversário qualificado, Campeão da Libertadores, o que valoriza ainda mais o feito flamenguista – que disputa palmo a palmo a vice-liderança com São Paulo e Palmeiras. Mas foi um duelo quase que de compadres, com aquele clima de peladas entre amigos de fulano contra amigos de beltrano.
Não transformem um jogo com elevado número de gols ou viradas incríveis em clássico de alto nível, pois nem sempre significa isso… uma coisa, necessariamente, não leva até a outra!
No mesmo dia, o Olympique de Marseille venceu de virada e também por 5×4 o Lille, levantando o bicampeonato da Supercopa da França (valeu título!). O jogo, com os mesmos nove gols da Vila Belmiro, sendo cinco deles marcados após os 40 da etapa final, não teve um nível técnico primoroso. Santos e Flamengo, ainda que com as performances acima da média de Neymar e Ronaldinho, também ficou devendo pelo desempenho defensivo dos dois times.
Sem exageros, sem achar que está tudo perfeito (assim como no empate contra o Ceará não esteve tudo errado), comemore torcida flamenguista. Comemorem, mas não mintam para si mesmos. Não é todo dia que jogarão contra um adversário que roubará 12 bolas e fará 19 faltas em 90 minutos de futebol… não mesmo.
Se engana quem quer. Ou o pior cego é aquele que não quer ver?
Publicado originalmente no Portal Extra-AP.