A imprensa diz que Ronaldinho tem que ir à Seleção. O técnico da Seleção convoca Ronaldinho. A imprensa critica o técnico que atendeu ao seu pedido. Dá pra entender?

Com um trabalho ruim em termos de resultados, que somente demonstrou involução de sua primeira apresentação até a mais recente, Mano Menezes convocou tudo que tem de melhor para o amistoso contra Gana no próximo dia 5, causando polêmica com clubes e imprensa, e forçando a CBF a contornar o “problema” com algumas alterações pontuais em sua tabela – nada mais natural e justo, já que a dona da Seleção também é dona do Campeonato Brasileiro.

Duas considerações para se fazer: a primeira é que Mano Menezes é pago para organizar a Seleção Brasileira e não o calendário dos clubes – este um problema antigo e que sempre foi empurrado com a barriga pelos dirigentes.

A “choradeira” (principalmente da imprensa carioca pela convocação de Ronaldinho Gaúcho) é oportunista e hipócrita, pois o principal prejudicado tem sido o Santos (e isso desde o Sul-Americano sub-20) e são oito clubes que perderão atletas (inclusive o líder Corinthians), não somente o Flamengo.

Oras, como alguém pode ser criticado por convocar o que todos julgam como “os melhores atletas” para a Seleção? E que inversão de valores é essa, que ao invés do torcedor querer ver o craque de seu clube na Seleção, passou a torcer pela não-convocação do atleta para que seu time não seja desfalcado? Três sinais:

  1. de que o calendário precisa ser modificado;
  2. que os clubes não podem jogar em simultâneo à Seleção;
  3. e que o excesso de jogos da Seleção banaliza sua existência e desencoraja o torcedor em prestigiá-la.

Finalizando ainda primeira consideração, é bom ser dito que se a Seleção desfalca os clubes durante o decorrimento das competições oficiais (não somente o Brasileirão!), a culpa disso não é exclusivamente da CBF, mas também dos dirigentes que se submetem a esse tipo de situação – assinam termos contratuais que permitem isso! – e elegem sucessivamente o atual gestor para o comando da entidade máxima do futebol nacional.

A segunda consideração é que não existirá 2014 para Mano Menezes se ele não sobreviver a 2011, 2012 e 2013. Mano Menezes tem boas idéias, fez trabalhos competentes no Grêmio e no Corintians, agregou boas teorias à Seleção, fez convocações elogiáveis na maioria das opções, mas os resultados são ruins. E boas idéias sem resultado não sobrevivem no futebol…

O fato é que o treinador se sente pressionado e para evitar um ano ainda pior do que já está sendo, teve que submeter-se a humilhação (depois do que disse sobre o atleta em programa de televisão) de reconvocar o lateral-esquerdo Marcelo e desfazer seu ideal de renovação com o chamado a Ronaldinho – que abre espaço para Adriano e Kaká “se” estes vierem a atuar bem!

Nunca é demais lembrar que Ronaldinho Gaúcho já foi convocado por Mano Menezes para o amistoso contra a Argentina, em novembro de 2010, e o Brasil saiu derrotado daquela partida. Portanto, escaldem-se: não dá pra se esperar nenhum ato messiânico dessa presença de R10 no time!

No mais, é bom ver que o nível do futebol brasileiro (dado o bom momento econômico por qual passa o país) subiu muito nos últimos anos. Na Copa de 2006, cinco anos atrás, a convocação de Parreira teve apenas três jogadores que atuavam no Brasil: Rogério Ceni, Mineiro (São Paulo) e Ricardinho (Corinthians). Hoje, o elenco tem dez atletas jogando o Campeonato Brasileiro, quase metade do time.

Publicado originalmente no Portal Extra-AP.