O Brasil viveu amordaçado durante o período de Ditadura Militar e a história condenou veementemente a prática adotada naquele período. Quantos não tiveram que tombar para que nos fosse concedido e facultado o direito de liberdade de crítica e expressão? Não foram poucos…

Com meus 29 anos recém completados, não vivi naquele período em que a informação/comunicação era censurada por nossos gestores militares. Mas quem viveu, sabe o quanto aquilo representou de atraso para nossa sociedade. E, principalmente, sabe o quanto foram difíceis aqueles anos.

Após o fim da Ditadura Militar, vieram nossos primeiros sopros de liberdade (embora que ainda tímidos): as Eleições Diretas (que elegem dinossauros da Ditadura até hoje, como Collors e Bolsonaros) e a nossa Constituição Federal de 1988, que consagra em seu artigo 5° o direito à Liberdade de Expressão como estendido a todos os cidadãos deste país.

Pois bem, três parágrafos de digressão e defesa do óbvio, mas com qual intuito isso foi feito numa coluna esportiva? O de mostrar o quão bizarra é a nota da Federação Catarinense de Futebol (FCF), que fez uma interpretação imbecil de um artigo que inibe ações de xenofobia e racismo dentro do Estatuto do Torcedor para querer censurar o torcedor, impedir o direito de crítica das torcidas de Avaí e Figueirense contra o Presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o senhor Ricardo Teixeira.

Ato estapafúrdio, ridículo, grosseiro, pífio, enfim, adjetivem do modo pejorativo que quiserem. É inominável a atitude da FCF e nos deixa em dúvida sobre qual ano estamos vivendo: 2011 ou 1968 pós-AI-5?

Uma ação que mostra toda a subserviência da Federação Estadual para com a CBF. Por isso que Ricardo Teixeira afirma “caguei montão” em entrevista sem grandes preocupações: tem subalternos fiéis para limpar a sujeira por ele. Mas é, também, uma ação que ultrapassa os limites de todo e qualquer bom senso ao ameaçar torcedores de expulsão do estádio por manifestarem-se legal e legitimamente, dentro de seus direitos, com uma ação que se caracteriza puramente como censura. Uma ação sem nenhum respaldo legal!

Todo repúdio do mundo é pouco para o Presidente da FCF, Delfim Pádua Peixoto Filho, que se expôs ao ridículo com tal atitude e já recebeu uma recomendação do Ministério Público Federal de abandonar tal idéia, pois sujeitará os torcedores que se sintam reprimidos a ingressar com ação criminal contra a Federação.

Democracia pressupõe liberdade. E a censura é algo indefensável em nossa sociedade, inclusive depois do que esse país viveu entre 1964 e 1984. Todo cidadão tem direito de colocar a boca no trombone, tem direito de criticar, tem direito de cobrar lisura, legalidade, transparência e moralidade no futebol brasileiro, que é um patrimônio cultural desse país e – em relações legais – transforma o torcedor que paga ingresso, pay-per-view e produtos licenciados do seu time em consumidor, o qual não pode ser expulso de um ambiente pelo qual pagou para estar por simplesmente exercer um direito constitucional seu.

Aguardo ansioso pela rodada de clássicos que começa hoje e vai definir o simbólico campeão do turno, com quatro equipes brigando por ele (Corinthians, Flamengo, São Paulo e Vasco). Mas espero ainda mais ansioso pelos protestos prometidos por torcedores contra a forma asquerosa (e monárquica) que a CBF dirige o futebol brasileiro e organiza (com dinheiro público) a Copa de 2014: é uma ação que tem que pegar agora e acontecer em toda rodada, que tem que espirrar nas instituições do Estado e provocá-las a investigar as denúncias de ilegalidade que são feitas e que o Presidente diz que “não liga até que saiam no Jornal Nacional”. Coisa que já aconteceu semanas atrás…

Que os torcedores catarinenses sejam corajosos e mantenham todas as atividades de protesto pensadas antes da nota da FCF. E eu pago pra ver a FCF ter coragem para agir de modo truculento e sem nenhum respaldo legal contra consumidores. Pago pra ver!

De fato, os protestos que estão começando já causam incômodo. Nada mais natural: quem deve, teme.

Publicado originalmente no Portal Extra-AP.