
O futebol realiza coisas que parecem improváveis; estamos todos acostumados com isso e é daí que nasce a maior beleza deste esporte. Ver o Chelsea com seu pior time desde o início da era Abramovich (e sem técnico!) ser campeão do torneio de clubes mais importante e concorrido do planeta é mais um dos feitos que entra na galeria do improvável.
Cabe rememorar que em agosto de 2011, no início da Champions, o Chelsea não era um dos principais favoritos. O plantel envelhecido, que mantinha os não-mais-garotos Lampard, Terry e Drogba como donos do time, não parecia fazer nem de longe ameaça ao trio Barcelona-Real Madrid-Manchester United, que entre o oceano de resultados da competição terminaram por naufragar.
Eliminar o Barcelona num mata-mata não é fácil. E o Chelsea estava perdendo por 2×0 no Camp Nou, sendo eliminado e com um homem a menos, quando – não se sabe de onde – buscou sua classificação. Tirar o quinto título do poderoso Bayern de Munique na Allianz Arena com quatro desfalques parecia impossível. E o Chelsea conseguiu empatar um jogo perdido aos 43 da segunda etapa para levantar a taça nos pênaltis.
Só um desses feitos homéricos bastaria para o título ser lembrado para sempre, mas o mais curioso de tudo é que esses fatos são “meros coadjuvantes” na campanha.
Não que eu queira desmerecê-los (ainda mais se levando em conta o grau de dificuldade de ambos), mas o primeiro título do Chelsea na Champions League ficará marcado pela virada contra o Napoli, após perder o primeiro jogo por 3×1, ficar sem o promissor técnico André Villas-Boas e se classificar com um 4×1 na prorrogação, no jogo de volta, com o interino Roberto Di Matteo no comando.
Quando o Napoli parecia ter sepultado a temporada do Chelsea na primeira partida, uma reviravolta épica classificou o time e ensinou aos jogadores uma lição: é possível!
E foi possível. O combustível daquela experiência não precisou ser queimado contra o Benfica, mas deu de sobra para o uso nos duelos seguintes contra os favoritos Barcelona e Bayern.
Um time que jogou 90% do tempo na defesa venceu. Dois times que buscavam o ataque não conseguiram êxito. E aí a discussão é boa: o Chelsea admitiu sua inferioridade ao Barcelona e ao Bayern e jogou com toda essa cautela por ser esta a tática mais adequada; ou o novo campeão europeu foi – sem eufemismos – retranqueiro e seu sucesso pode significar um retrocesso ao futebol?
Claro que ver aquela “ode ao futebol” do Barcelona sobre o Manchester em Londres foi mais prazeroso que assistir ao empate dramático do Chelsea contra o Bayern em Munique. Quando o espetáculo vence, o futebol também vence. O jogo bonito atrai adeptos e amplifica os fãs do esporte. Mas os adeptos do futebol físico, tático e defensivo, também possuem direito de ser felizes. E eles tem no Chelsea, hoje, o seu legítimo representante.
Ver o melhor time vencer parece mais justo e não deixa dúvidas ou maiores discussões. Mas a controvérsia também precisa de seu espaço no meio desportivo. Um azarão foi campeão, mas o mundo não acabou.
Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 24.