A manchete desse texto é um dos chavões mais usados pelo comandante santista, Muricy Ramalho. Depois de disputar o título brasileiro nas últimas seis temporadas, vencendo quatro e ficando em segundo em 2005, o técnico santista deve até estranhar sua rotina de Campeão da Libertadores: preparar o time para o Mundial durante os próximos quatro meses, sem ter que se preocupar com o título do nacional.

Caso não haja nenhum Mazembe pelo caminho, Barcelona e Santos farão uma final histórica. Mas por melhor que seja o time do Santos, vai enfrentar o melhor time do planeta nos últimos três anos, não será favorito.

A idéia da diretoria e do marketing santista em inscrever Pelé como atleta na competição e utilizá-lo em campo é esdrúxula. Deve ser vista como pertencente ao campo da brincadeira, não como algo sério.

Primeiro que o eterno Rei, na altura dos seus 70 anos (terá 71 no Mundial), não possui condições de contribuir em campo com nada. Seria somente uma peça decorativa, deixaria o time com um a menos no gramado. Se o Santos tiver alguém expulso, por exemplo, ficará com menos dois.

Depois que não é um torneio amistoso e o adversário não é o XV de Piracicaba. É um Mundial da Fifa e os rivais vão entrar lá pra ganhar. Se o Santos vence por um 1×0, Pelé entra pra ser a cereja do bolo e recebe a bola, o jogador adversário vai olhar para o atleta do século passado e aplaudi-lo ou vai correr pra dividir a bola com ele e tentar buscar o resultado em favor de seu time? E quais as consequências de um encontro físico do idoso Pelé contra um Mascherano?

O número de inscrições na competição também é limitado. O Santos vai deixar de fora um atleta que possa ajudar o grupo dentro de campo para apostar numa jogada de marketing? E o que jogadores loucos para ter a chance de jogar contra o Barcelona, sentados no banco, vão achar de não terem jogado por Pelé, sem condições de jogo, ter entrado em seu lugar na partida? São só três substituições na partida; Pelé consumiria uma delas…

Por fim, o que seria dessa homenagem se o Santos nem passar pelo adversário da semifinal ou até mesmo perder de modo acachapante para o poderoso Barcelona?

Pela empolgação do presidente santista, a certeza pelo título existe. Mas não tem nada certo, trata-se de uma certeza ilusória. O Santos, se chegar com esse clima de já ganhou, pode sofrer um revés pior que o do Internacional em 2010. A equipe brasileira sequer é a favorita na disputa.

É momento de botar os pés no chão, resolver a situação do time na tabela do Brasileirão (33% de aproveitamento é índice de quem quer ser rebaixado!) e remontar o time para a disputa do Mundial. As chances do Santos erguer a taça em dezembro passam por isso e não pela contratação de Pelé.

Se o time quiser se reforçar com um novo camisa 10, existem muitas opções no mercado. Mas Pelé não é opção, não é atleta.

Publicado originalmente no Portal Extra-AP.