
Na estréia, um 4×0 convincente sobre o Avaí e depois quatro empates em sequência. Dois fora de casa, o que é aceitável. Dois com mando de campo, em clássicos contra Corinthians e Botafogo, o que também é normal. O Flamengo somava naquele instante sete pontos e o líder tinha quinze. Tudo o que se ouvia sobre o atual campeão carioca era acerca de crise, mau desempenho, descompromisso de seu camisa 10, olhar tático ultrapassado do treinador etc.
É verdade que se esperava mais de Ronaldinho Gaúcho pelo que ele fez na Europa e pelo que põe no bolso a cada trinta dias. Assim como é verdade que o futebol apresentado pelo Flamengo não era nenhum colírio. Mas as críticas para um time que havia perdido uma única vez na temporada e em início de campeonato (onde estava invicto) foram justas?
Isso é o que menos importa. No time de maior torcida do Brasil tudo é exagerado, não existe meio termo. Quando ganha, é o melhor do mundo; quando perde, o pior. Cinco jogos sem vencer e o título nacional como uma idéia distante realmente acendem um sinal amarelo, mas na hora de jogar a água suja do banho é necessário tomar cuidado pra não deixar a criança ir junto pro ralo.
Justas ou injustas, o desempenho de Ronaldinho melhorou após as críticas. É claro que ele não voltará a ser o jogador que foi no Barcelona, mas com trinta anos e em boa forma, ainda pode render. O time subiu junto com ele e venceu as últimas três partidas. Agora, aquele líder do primeiro parágrafo que tinha oito pontos a mais que o Flamengo está um ponto atrás; a incomoda décima posição na tabela foi trocada pela vice-liderança. Usando as críticas como combustível, o Flamengo renasceu e vai se credenciando como um dos favoritos ao título.
Claro que usar o desdém midiático como motivador de atletas não é nada inédito no esporte. E também é sabido que do mesmo jeito que uma derrota apaga virtudes, uma vitória esconde defeitos. E o Flamengo nem era horroroso quando empatou quatro e nem é ótimo agora que venceu três. Mas é notório que o time evoluiu e evolui a cada minuto de futebol apresentado.
Depois de muito experimentar em seu laboratório, a formação que Luxemburgo usou ontem, um 4-4-2 tradicional onde Renato e Thiago Neves chegam junto de Ronaldinho e Deivid, funcionou e – mesmo que pareça previsível – pode fazer a diferença em favor do time no restante do campeonato.
Pode-se dizer que o divisor de águas dessa reação foi o minuto 21 do segundo tempo contra o Atlético-MG. Ali o Flamengo jogava em casa e perdia por 1×0, quando Ronaldinho Gaúcho empatou com um golaço e cresceu no jogo, levando o restante do time junto. A partida terminou em 4×1 para o Flamengo e o Atlético está perdido até hoje depois daquela virada.
Contra outro mineiro, o América, dessa vez fora de casa, de novo o time estava em desvantagem no segundo tempo. E outra vez Ronaldinho entrou em ação; e outra vez o Flamengo saiu de campo com mais três pontos. Para fechar a trinca, contra o ex-líder São Paulo, o Flamengo jogou sozinho e merecia um placar mais dilatado que o simplório 1×0.
No jogo dos contrastes, o São Paulo que perdeu as últimas três foi ultrapassado pelo Flamengo que venceu o terceiro duelo seguido: um pegando o elevador pra subir e outro pra descer. No confronto dos hexas, os dois saem com credenciais distintas: o rubro-negro com a de favorito ao troféu e o tricolor com a de cavalo paraguaio.
E lá vai a maior torcida do país feliz da vida para o episódio 273 do Fla-Flu, agendado para o próximo domingo…
Publicado originalmente no Portal Extra-AP.