
Foram quatro anos que se passaram e, de lá pra cá, acompanhamos com mínima atenção o caminho trilhado por ícones como Michael Phelps e Usain Bolt, ou seja: não tentamos aprender com eles. Demos um pouco mais de olhares aos nossos César Cielo e Maurren Maggi; mas somente olhares, pois os incentivos concretos às modalidades olímpicas continuaram modestíssimos (pra não falar inexistentes). É fato que fizemos muito pouco para que o Brasil começasse a se projetar como uma potência olímpica e o resultado disso está exposto no quadro de medalhas de Londres.
E não vamos alimentar ilusões, sejamos honestos: este salto qualitativo não acontecerá em 2016, quando seremos sede dos jogos.
Longe de ter uma política educacional eficiente, um plano de segurança pública eficaz, um sistema de saúde que trate com dignidade seus pacientes, enfim, distante de sermos um país que faça jus ao status de oitava maior economia do planeta, continuamos afundados em problemas estruturais em todas as esferas. E isso atinge e fragiliza ainda mais a ação do poder público no incentivo ao esporte.
Esqueçam o futebol, que foi criado na Inglaterra e que tem a Espanha reinando em absoluto. Somos, antes de tudo, o país das telenovelas. Depois desta opção, podemos também nos achar o país da corrupção, vide casos como a CPI do Cachoeira e o julgamento do mensalão, tão constantes quanto a cobertura olímpica em nossos jornais. Soa, portanto, como hipocrisia auferir ao Brasil o título de país dos esportes por conta do mesmo sediar os próximos eventos esportivos de grande importância, em 2014 e 2016.
Esta “década esportiva”, além de gastos exorbitantes com obras de necessidade duvidosa, pode significar muito pouco para o desenvolvimento da prática esportiva no país. Vide o que já não aconteceu após os jogos Pan-Americanos de 2007. Se quisermos pegar um exemplo ainda pior, basta olhar como a Grécia quebrou após gastos públicos com os jogos de 2004.
Excluindo o futebol masculino, chega a ser revoltante o tratamento que é dado aos demais esportes no país. Para citar um exemplo, o ciclista Magno Prado teve que correr com o uniforme preso por alfinetes já que o seu zíper quebrou e ele, um atleta de nível olímpico, não possuía um uniforme reserva. Outro exemplo veio nas palavras (e lágrimas) da treinadora da equipe feminina de judô, Rosicleia Campos, que disse quase não ter o que comer quando foi treinar na Rússia.
Ainda assim, sabe-se lá como, o Judô é o esporte que mais medalhas trouxe para o país na história dos jogos e o tão abastado futebol masculino ainda busca um ouro inédito.
Os quatro anos de ciclo olímpico não podem representar para os atletas – que treinam diariamente e praticamente se mantém na profissão sozinhos – um exílio. Mas quando falha a educação (onde a prática da educação física é um iniciador à prática desportiva), quando as condições de se profissionalizar numa modalidade inexistem, quando a opção mais promissora para um jovem passa a ser ingressar no crime do que num esporte; é desolador pensar que a falta de uma oportunidade pode levá-lo a figurar numa capa de jornal com uma tarja negra sobre os olhos e não portando uma medalha no peito. Temos mais de 190 milhões de habitantes e estamos desperdiçando muitos talentos…
Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 28.