
Passado o primeiro turno do Brasileirão, mais do que chover no molhado e dizer que o Atlético-MG está sobrando e que o Fluminense é o único candidato a antiatlético na competição, se torna interessante pincelar sobre o desempenho de um jogador em especial: Ronaldinho Gaúcho.
No Flamengo, começou o ano em baixa, demitiu Vanderlei Luxemburgo, não rendeu nada com Joel Santana e abandonou o clube após processá-lo por salários atrasados. Clube que meses antes o protegeu no dissídio com Luxemburgo…
Ronaldinho parecia acabado. Ainda convocado por Mano Menezes no início da temporada, ficou de fora das Olimpíadas após figurar na pré-lista. A opinião pública inteira estava contra ele e o técnico não quis bancá-lo.
Aí o dentuço apareceu no Atlético e parece estar relançado a sua carreira ao melhor estilo “a volta dos mortos vivos”. Mais que os quatro gols e seis assistências nos 15 jogos que fez por seu novo clube, Ronaldinho está numa configuração digna dos seus melhores tempos.
Não tem se escondido como fez nos últimos cinco meses de Flamengo: entra nas partidas e, mordido como quem quer provar o valor que (ainda) possui, resolve para o galo. Contra o Vasco, jogo em que teria sido afastado por um atraso, a comissão técnica voltou atrás na punição e Ronaldo foi decisivo em campo: dos pés dele saiu o chute que Pras espalmaria e findaria no gol de Jô, garantindo os três pontos mais importantes do turno – se o Atlético perdesse, o Vasco reassumiria a liderança.
Apesar de um ou outro deslize, a indisciplina de Ronaldinho é absolvida pelo grupo sem gerar ciúmes ou rachas. Melhor do mundo por duas vezes, ele é mais uma referência para os colegas de trabalho do que simplesmente um dos seus semelhantes. Por isso as bobagens que ele faz não causam as hecatombes que causariam se fossem feitas por outro.
Diante dessa transformação, a questão é: como ele mudou da água para o vinho tão rápido? A estrutura do Atlético-MG é uma das melhores do país e o Flamengo quase não possui estrutura; o elenco é qualificado e só o imponderável pode explicar por que cargas d’água foi brigar contra o rebaixamento no ano passado, diferente do grupo cheio de volantes que formou o Flamengo; mas foi só isso?
Não. A mudança de Ronaldinho foi por outro motivo e deixa um recado claro para a cartolagem: salário em dia conta muito!
Eu não acho que o boicote ao salário não pago deva ser o mau desempenho em campo. Fingir que trabalha é tão desprezível do ponto de vista profissional quanto fingir que remunera. Mas está na cara que o problema de Ronaldo não era físico e nem técnico: só deu ao Flamengo o que o Flamengo (não) deu a ele; e ele não foi ao Flamengo por amor, mas por dinheiro – basta lembrar do leilão feito por Fla, Grêmio e Palmeiras no início de 2011.
Ronaldinho terminar o ano como Campeão Brasileiro – falta muito pra isso ainda, mas é possível! – seria tudo que a direção do Flamengo não deseja. Ao sair de lá, lembremos, os principais gestores do clube carioca deram uma coletiva explicitando o não-profissionalismo do atleta e alertando aos que ficaram que “acabou a bagunça”. Só que agora o Flamengo contratou Adriano. Vão anunciar que “acabou a organização” ou que “a bagunça voltou”?
Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 29.