A extrema-direita mundial se reorganiza (de modo sério) para ocupar governos desde a última década (2009 foi o ano em que a ala radical do Partido Republicano fundou o Movimento Tea Party), mas conseguiu, de fato, alavancar esse processo com a eleição de 2016 dos Estados Unidos, que deu a Donald Trump o mandato político mais importante do mundo, contrariando todas as pesquisas e previsões.

A vitória de Trump foi motivada pela arrogância do Partido Democrata, que apostou que qualquer ser vivo venceria o troglodita de extrema-direita na disputa eleitoral e indicou Hillary Clinton para concorrer contra ele, sendo Hillary uma espécie de Renan Calheiros dos Estados Unidos – possuindo ela uma imagem muito ruim perante o eleitorado.

Erro de cálculo dos Democratas de lado, a eleição de 2016 deu poder a Trump e voz aos idiotas. Aquelas pessoas que não falavam nada sobre política por saber que falariam besteira e passariam vergonha, perceberam que eram maioria e perderam a vergonha das suas burrices.

Trump, na Presidência dos Estados Unidos, resgatou dos esgotos o que havia de pior na sociedade. Em torno dele, os extremistas da direita mundial reorganizaram suas agendas e isso trouxe, aqui no Brasil, o que vimos em 2018 com a vitória de Bolsonaro nas eleições.

Quatro anos se passaram de 2016 até aqui. E os retrocessos políticos, sociais e humanitários na geopolítica mundial são perceptíveis. Em meio à pandemia da COVID-19, o principal país do mundo saiu da Organização Mundial de Saúde; diante do agravamento das complicações climáticas do planeta, o mesmo país também saiu do Acordo de Paris; discussões sobre a necessidade de tomarmos vacinas e sobre a Terra ser plana ou redonda ganharam destaque. Passamos a andar pra trás!

Diante desse caos todo, a eleição em curso nos Estados Unidos, que deve anunciar (hoje ou amanhã) a vitória apertadíssima de Joe Biden, ganha contornos que podem defini-la como a mais importante eleição da nossa geração.

Com Trump vencendo, o processo de reorganização e avanço da extrema-direita mundial ganha força e fôlego para seguir adiante. Com Trump derrotado, essa reorganização estaciona e tende a regredir, gerando até um efeito dominó para eleições em outros países – inclusive a do Brasil em 2022.

Se a pauta da esquerda e/ou de setores progressistas será reacesa com a saída de Trump como “Presidente de um mandato só” é difícil de dizer – isso depende muito mais do grau de mobilizações populares em cada país do que da mudança de liderança política nos Estados Unidos. E Biden não é sequer um “liberal bem-intencionado”, como era Obama. Ele é um representante da direita tradicional e não existe qualquer ilusão de que fará a política das elites.

Mas não é a chegada de Biden que vai abrir a conjuntura de lutas políticas para dias possivelmente melhores que os atuais: é a saída de Trump. Se por um lado não houver muito a comemorar com quem venceu, por outro será bastante possível comemorar por quem está saindo.