E tudo começou em 2008! Faz quatro temporadas que o Barcelona renovou o espírito do futebol e mostrou que (ainda) é possível vencer sem abrir mão do espetáculo. A alma do Barcelona ressignificou-se no dar prosseguimento ao futebol total que Rinus ensinou a Cruyff e que este passou a Guardiola.

O Barcelona atual encanta. Vence e convence. Usar adjetivos para descrever seus feitos é pedir pra ficar escrevendo até esgotar o léxico. Mas como se trata de futebol, algumas vezes tropeça. E, incrivelmente, por três vezes seguidas contra equipes “mais fracas”, o Barcelona foi superior e não conseguiu vencer.

Caiu de pé nas derrotas para Real Madrid e Chelsea, mostrando que além de exemplar vencedor, é um time que também sabe perder. Ninguém viu Guardiola atribuindo os fracassos na Champions e na Liga Espanhola a fatores externos, mas tratando-os como causalidade futebolística e parabenizando os vencedores. E a torcida não brigou por isso, viu o time perder os títulos que disputou a temporada inteira em pleno Camp Nou e aplaudiu seus jogadores.

Quando tudo parecia caminhar para a mais elevada harmonia, o Barça perdeu os dois títulos mais importantes que disputava e em seguida viu seu treinador dizer adeus. O camisa 10 do time, um baixinho chamado Messi, disse estar triste e falou que aquele técnico que se despediu era mais importante do que ele para o clube.

E agora? O ciclo deste Barça está encerrando-se e o futebol vai retroceder, retomando a velha e arcaica lógica de suprimir o jogo bonito em detrimento do resultado positivo? Sejamos bem menos fatalistas…

O futebol deste Barcelona encantou (e aumentou) sua torcida pelo mundo, fez até os adversários aplaudirem-no, agregou valor aos atletas, aos licenciamentos, aos patrocínios, aos contratos por amistosos e torneios de pré-temporada etc. E tudo isso não só pelos resultados, mas principalmente pelo seu futebol em estado puro. Está, portanto, na hora de pensarmos na logística reversa do futebol: é mais lucrativo aos clubes investirem no espetáculo do que a fixação pelo resultado!

Mesmo perdendo, o Barcelona não deixou de ser o que é e não passou a ter menos respeito. Se isso nos ensinou uma coisa, é a de que melhor do que vencer, é vencer demonstrando superioridade técnica. E que perder jogando na retranca dói muito mais do que perder jogando bem, lutando pelo resultado positivo com outras armas que não sejam o chutão pra frente e o cruzamento no meio da área.

Tito Vilanova, jogador bem menos talentoso que Guardiola e que também passou pelo clube, pode dar uma boa atualizada no trabalho de seu antecessor, como o mesmo já tinha feito em relação ao trabalho de Frank Rijkaard. O Barcelona mudou de técnico em 2008, mas não mudou sua formatação em campo: permaneceu no 4-3-3 dos holandeses, com pontas abertos e futebol veloz.

O que Guardiola veio a agregar foi a importância da posse de bola e a troca de passes. Algo básico, mas que fez grande diferença. O futebol é simples, são onze pessoas tocando a bola em direção ao gol adversário com o objetivo de acertar a bola na meta. Quem complica somos nós. Mas não vamos complicar agora: o espírito do bom futebol ainda vive e é cedo para decretar o seu sepultamento.

Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 23.