
Como a informação é nossa mercadoria e a espetacularização dela torna-a mais atraente e vendável ao consumidor, tornou-se lugar comum no jornalismo a imprensa esportiva expor nosso produto nacional como “o mais espetáculo da Terra”. Uma coisa que, no passado recente e na atualidade, só tem atrapalhado: transformamos vitórias difíceis em “obrigação” e derrotas normais em “tragédias”.
Nas duas últimas Copas vendemos a imagem nonsense de um Brasil ultrafavorito (muito mais em 2006 que em 2010, é verdade), que atropelaria fácil a concorrência e – por obrigação – traria o hexa. Mas dentro de campo ficou fatídico que o Brasil não perdeu para França e Holanda: foram as seleções europeias que mereceram vencer por serem superiores.
Derrotas que serviram para lembrar que a Copa do Mundo não tem somente o Brasil como participante, mas outras 32 seleções. E que doeriam menos se soubéssemos dizer que perdemos de adversários mais qualificados ao invés de configurar o placar como uma zebra desanimadora.
No mês passado vendeu-se a ilusão de que Santos e Barcelona fariam um jogaço, um dos duelos mais importantes do século em curso. E quebrou a cara quem apostou nisso, o jogo sequer aconteceu já que só um dos times praticou futebol.
Negamo-nos a vender cadernos esportivos estampando nas manchetes que não temos mais o melhor futebol e nem os melhores jogadores do mundo no momento. A liga brasileira amadureceu e tornou-se interessante devido ao acirramento de sua disputa, mas não dá pra pensar que ela está no mesmo nível da espanhola ou da inglesa pois isso é falso.
Gostamos de exagerar, gostamos do máximo e não adianta pensar em ser terceiro ou segundo pois o nosso ego não aceita estar perto do topo: só aceitamos pensar que os outros estão abaixo. Por isso que inflacionamos tanto as qualidades de um Hernanes, de um Ganso, de um Neymar, de um Leandro Damião… pena que tudo desaba quando estes jogares atuam contra adversários qualificados e deixam de ser brilhantes para se fazerem apenas de esforçados dentro de campo.
Não somos favoritos para vencer a Copa de 2014. Mas a pressão com que passamos essa tarefa para Mano Menezes demonstra o brasileirismo mais explícito, vendido todos os domingos por Galvão Bueno com um “pra cima deles” e “é do Brasil!”. Só se engana quem quer.
Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 17.