Muita coisa pode ser dita e extraída do vídeo da reunião de Bolsonaro com seus ministros do dia 22 de abril. E muita coisa já tem sido dita por muita gente: dizem que há provas da interferência de Bolsonaro na Polícia Federal; dizem que não há provas dessa interferência e que os indícios são frágeis; dizem que há crimes dos ministros Weintraub (Educação) e Salles (Meio Ambiente) e da ministra Damares (Mulher, Família e Direitos Humanos); dizem que há crimes do próprio Bolsonaro (ao falar em sistema de informações particular e na segurança para amigos); dizem ser absurdo que no meio de uma pandemia com milhares de mortos no país e de um estado de calamidade pública em vigência quase nada sobre a crise da COVID-19 tenha sido tratado.

O que a imprensa mais repetiu, da última sexta-feira (22/05) até hoje (24/05), é tão parecido que se tornou até chato de ouvir: “o vídeo não é uma bala de prata” – em alusão ao método utilizado para matar vampiros e lobisomens em obras de ficção.

Pode até não ser uma bala de prata, mas há coisas graves no vídeo (ou “na fita”, como fala o antiquado e tosco Presidente da República que temos). Do “tentei trocar gente da segurança nossa no Rio e não consegui” ao “eu não sou informado e não dá para trabalhar assim, fica difícil, por isso, eu vou interferir, ponto final”, passando pela sucessão dos atos da Presidência desde a saída de Moro do governo, que validam a versão dada pelo ex-juiz e ex-ministro.

Talvez não tenhamos ficado tão impactados com isso por conta de já serem de conhecimento público desde a coletiva de demissão de Moro, desde a coletiva de Bolsonaro acompanhado dos seus ministros e desde a divulgação da transcrição de fragmentos da reunião. O impacto já tinha sido criado quando essas informações vieram a público. E o que foi trazido a público, antes e na última sexta, segue sendo muito grave.

Mas o andamento da apuração sobre essas coisas graves dependerá do entendimento do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, que tem agido de modo furtivo sobre o inquérito em andamento e parece postular mais a uma indicação ao Supremo Tribunal Federal em novembro (e para isso ele precisa agradar Bolsonaro!) do que à necessidade de se fazer Justiça.

Vontade de Aras à parte, trabalho de Celso de Mello à parte e negociação do governo com o Centrão para barrar na Câmara possíveis processos de impeachment ou de investigação de Bolsonaro à parte, eu gostaria de abordar outro aspecto que foi menos comentando sobre o vídeo da reunião: o Presidente da República e seus ministros realmente acreditam no que eles falam?

O governo Bolsonaro, desde antes de assumir, sempre mostrou insensibilidade às desigualdades sociais do país e defendeu postulações econômicas elitistas e meritocráticas – modus operandi que pode ser resumido no termo ultraneoliberalismo.

Os projetos apresentados por Bolsonaro – Reforma da Previdência, Plano Mais Brasil, Reforma Administrativa, Contrato de Trabalho Verde e Amarelo, fast track para privatizações etc – sempre demonstraram uma vontade muito grande em defender empresários, reduzir direitos dos trabalhadores e apostar na concentração de renda e que quem tiver mérito, que concentre, enriqueça e cuide de sua vida.

Por outro lado, o populismo de extrema-direita de Bolsonaro sempre o fazia aparecer em público ressignificando seus projetos antipovo como se fossem projetos populares – como em 23 de março, quando defendeu que sua MPV 927/2020, que permitia às empresas zerar o salário do trabalhador por até quatro meses, era positiva para o empregado.

Uma coisa é você mentir em público, diante das câmeras, para manter a imagem do governo. Agora porque mentir diante do espelho?

Na reunião de Bolsonaro com seus ministros de 22 de abril, o Presidente diz estar preocupado com o povo, em sintonia com o povo, implodindo o Inmetro em defesa do povo, que seu governo faz a coisa certa e que outros não fariam, com ministros dizendo que ninguém pode se sentir melhor do que o povo etc. Tudo isso é verdade ou pantomima?

Essas pessoas, fazendo o que estão fazendo, realmente acreditam no que dizem? Realmente acreditam que as políticas pró-elite que estão implementando serão benéficas aos 210 milhões de brasileiros?

Vejo dois caminhos: ou essa divulgação pública da reunião já estava na lista de possibilidades de Bolsonaro e de alguns ministros e as falas foram mera hipocrisia, ou a ignorância desse pessoal é maior do que nossa imaginação consegue administrar.

Diante da segunda hipótese, que é a que tenho mais segurança em afirmar, não vejo outra coisa a dizer que não seja que o país está refém da ignorância.