
A Marvel não fez um filme de super-herói do seu Universo Cinematográfico com Pantera Negra: ela fez um filme para discutir uma questão atual e necessária, que é a marginalização e a criminalização da população negra e pobre.
O país fictício de Wakanda, com o metal fictício Vibranium e suas aplicações, prosperou. Aquela parte da África que não foi colonizada se tornou a nação tecnologicamente mais avançada do planeta, mas sem abrir mão das suas tradições e dos seus rituais.
Tradições e rituais que conferem cores, ritmos e sons diversos e interessantes ao filme, mas que também passam por questionamento dos jovens sobre algumas arcaicidades que precisam ser revistas, como as vestimentos rudimentares e desconfortáveis das mulheres – vide a reclamação da Shuri.
Do lado de fora de Wakanda não existe ficção: é o mundo real que conhecemos e onde vivemos, no qual a população negra sofre com rigidez de patrulhamento, excesso de violência policial, amontoada em favelas, encarcerada em presídios, passando fome. Nada disso é ficção, são questões reais deixadas como legado pelos séculos de escravização dos negros e negras, que a Marvel colocou como pano de fundo para discussão num dos seus filmes.
E essas questões motivaram N’Jobu a no passado querer romper o isolacionismo do seu país e usar os recursos avançados de Wakanda para fornecer ajuda humanitária aos negros oprimidos dos demais países. Mais de duas décadas depois, elas ainda motivam o seu filho, N’ Jadaka/Erik Killmonger, a postular o trono de Wakanda para iniciar uma revolução a partir da luta dos oprimidos contra os opressores.
E essa atuação de Michael B. Jordan como Killmonger entra para a história! Não se trata de um vilão vazio que quer apenas “fazer o mal e rir disso”, como o Coringa. Não se trata de um vilão maniqueísta cheio de defeitos que antagoniza com um herói cheio de qualidades. Se tratam de ideologias em rota de colisão.
Killmonger sequer pode ser, a meu ver, considerado um vilão. Ele é uma outra face da moeda em relação ao que T’Challa representa na condição de líder de Estado. Não há sequer espaço para piadas sobre a causa de Killmonger, pois ela não se trata de ficção, mas de uma ferida real, aberta, que a sociedade busca esconder. E o discurso de Killmonger é poderoso ao ponto de modificar a forma de T’Challa fazer política e ceder à abertura de Wakanda para o mundo, deixando a neutralidade de lado para construir uma grande rede de ajuda humanitária.
Se você esquecer que Pantera Negra estava em Guerra Civil, o filme sequer precisa ser visto como parte integrante do Universo Marvel. É uma questão local, interna de Wakanda, discutida por dois postulantes ao trono, sem nenhuma ligação maior com os 17 filmes anteriores ou com as Jóias do Infinito que serão a centralidade do próximo filme – e nem precisava ter isso!
É um filme sobre política, sobre desigualdade social, sobre empoderamento dos oprimidos, sobre igualdade de homens e mulheres, sobre a força das mulheres para se desenvolverem em áreas como ciência e militarismo sem dever nada aos homens. Tudo isso numa embalagem de filme de super-herói.
É um filme que termina com T’Challa literalmente empalando o discurso de Donald Trump, mostrando que não é justo que poucos tenham tudo e que muitos não tenham nada; e que nesta realidade sejam construídos muros ao invés de pontes.
É uma crítica corajosa e necessária, que eleva as possibilidades do gênero e que eleva a própria condição da Marvel em administrar e diversificar seus filmes.
Talvez seja a primeira vez na história que uma criança negra possa ir ao cinema e sair de lá se imaginando como super-herói, sem ter vergonha de seu cabelo crespo ou da cor de sua pele, mas tendo orgulho deles. Isso não é qualquer coisa!