A palavra não pode ser outra, o que descreve o atual momento do São Paulo deve ser denominado como crise. Mas como o clube que protagonizou o cenário desportivo nacional entre 2005 e 2008 pode ter se apequenado tanto? Ou será que foram os outros que cresceram enquanto o tricolor estagnou? Vejamos…

Mesmo na época do inédito tricampeonato nacional, o São Paulo jogava debaixo do tapete parte de seu insucesso. Desde a Libertadores de 2005 que o clube passou a priorizar e investir no título da competição continental, mas com os fracassos diante de Internacional (2006), Grêmio (2007) e Fluminense (2008), os Brasileirões serviram de consolo. Ainda que investir por uma Libertadores e trazer um Brasileiro soasse como pagar por uma Ferrari e adquirir um BMW.

Em 2009 e 2010 duas novas eliminações caseiras diante de Cruzeiro e Internacional, só que daí por diante nenhuma taça foi levantada e o jejum de conquistas já chega aos três anos e meio. Um clube como o São Paulo, com o segundo maior orçamento do país (já foi o primeiro até 2009), não pode enxergar como normal essa situação e tentar apaziguar com limpezas no elenco e demissões contínuas de técnicos.

Muricy Ramalho e Ricardo Gomes, demitidos do São Paulo, levantaram em 2011 a Libertadores e a Copa do Brasil que o clube queria nas últimas temporadas e não conquistou. Então como colar o rótulo da incompetência nos técnicos diante deste quadro?

A crise no futebol do São Paulo não é técnica; pois o elenco é dos melhores do país nos últimos três anos e meio e nem estadual conseguiu conquistar. Trata-se de uma crise político-administrativa que começou com uma alteração de tempo de mandato e culminou numa segunda reeleição – vista por muitos como ilegal – do atual presidente, Juvenal Juvêncio.

Crise que começou com o desdém pelos rivais, culminando no episódio que o Corinthians foi forçado a bater o pé e não alugar mais o Morumbi para mandar seus jogos. Crise que se estendeu com a Federação Paulista de Futebol nos fins de 2008, fazendo com que a mesma (por retaliação) passasse a esquecer o Morumbi como palco de suas decisões estaduais. Crise que respingou na relação com a Confederação Brasileira de Futebol e fez com que o Projeto Morumbi 2014 se diluísse e tornasse viável a construção da Arena do Corinthians para abertura da Copa do Mundo daqui a dois anos.

E com o futebol esquecido no meio dessas brigas – a única peleja que o São Paulo teve razão em seguir adiante foi a do caso Oscar – acabou desaguando no cenário atual. Com uma política de teto salarial modesta (para não dizer defasada) o São Paulo não consegue mais competir com rivais por grandes jogadores. Mesmo com toda a estrutura de suas categorias de base, tem assistido Santos e Internacional lançarem no mercado um número maior de talentos. Até na Taça das Bolinhas, um título-não-título, irrisório, o clube optou por ferir o ego de seu aliado político, o Flamengo, e acabou assistindo a cisão do Clube dos 13.

O São Paulo, que já foi Soberano, olhou pra baixo e desdenhou de quem viu. Agora colhe os frutos disso vivenciando um desastre após outro. Politicamente, se isolou. Moralmente, vilipendiou a si próprio. Pisou em sua própria democracia interna e deixou de ser exceção para ser ordinário. É um jejum merecido pelo que fez e faz sua diretoria, tal qual aconteceu ao Vasco de Eurico Miranda. Um título pode até vir, pois o elenco tem qualidade, mas não vai acabar com a crise, apenas jogá-la mais uma vez embaixo do tapete. O remédio do São Paulo não é mais demitir técnicos ou limpar o elenco, mas sim repensar sua gestão, a começar por um novo presidente.

Publicado originalmente no jornal Extra-AP – ano 1 nº 26.